Friday, January 13, 2006

A Primeira Vez Ninguém Esquece

A Primeira Vez Ninguém Esquece

Pior de tudo é que quem diz isso está com toda a razão. Eu lembro da minha primeira boneca (uma Emilia de pano) do meu primeiro sutiã (eu odiei aquela coisa, lembro que tirei e amarrei na meia sem que minha mãe visse) meu primeiro cachorrinho (o Boby) e a primeira vez que dormi sozinha na casa de uma amiga (chorei a noite inteira). Esses dias eu tava lembrando da primeira Exposição de Arte que eu fui.

Eu lembrava exatamente da situação, eu estudava no ESAG, (na 5° série) e minha professora de História (Cláudia) falou por acaso na sala que a escola não iria nos levar para ver uma exposição de arte importante, mas que ela oferecia aos interessados três vagas para ir com uma outra escola que ela dava aula.

Lembro que fui a única que disse que queria ir e fiquei com medo de ir sozinha, então convenci uma amiguinha a ir comigo. Fui com a professora até a outra escola e entrei no ônibus com aquele monte de crianças que não conhecia. Depois disso só lembro de dois quadros que me deixaram pasmas, mas chegarei a eles depois.

Eu queria muito lembrar de mais coisas sobre a bienal, eu nem lembrava que era uma bienal, eu nem sabia o que era uma bienal! Resolvi procurar mais sobre ela e descobri que era de fato a XXIII Bienal Internacional de São Paulo (hoje eu sei exatamente do que se trata!), a única coisa que eu tinha para encontrar a bienal era dois quadros que ficaram gravados na minha memória, inclusive os nomes, nem a minha idade ou série eu tinha certeza, mas esses dois quadros, eu sabia.

Santo Google! Demorei exatamente cinco minutos para encontrar o que queria (http://www1.uol.com.br/bienal/23bienal/pbienal.htm), descobri que a Bienal aconteceu em 1996, que eu tinha 11 anos na época. Queria lembrar porque me interessei em ver a bienal... com essa idade só me interessava brincar de Barbie... anyway, vendo agora, a bienal deve ter sido fantástica, é uma pena que não me lembre de todos os detalhes.

Eles tinham salas com vários artistas (famosos) que eu nunca tinha ouvido falar, o único que eu conhecia de nome era o Picasso, mas fora ele tinha salas inteiras com obras de Andy Warhol, Edvard Munch, Goya, Basquiat, Tomie Ohtake, Win Wenders e vários outros.

No site tem uma foto de cada uma das obras que estavam em exposição e revendo, eu lembrei de muita coisa. Começando com Warhol, eu lembro exatamente daquela foto do Mao Tse Tung e também a da Marylin Monroe colorida (quando vi essa foto na faculdade da aula de História da Arte eu fiquei pensando onde que eu tinha visto. Agora lembrei!). As outras acho que foram apagadas da minha memória ou eu passei reto por elas.

De Arnulf Rainer eu só me lembro da obra chamada Máscara de Morto, eu fiquei na frente dela tentando saber porque ele tinha riscado tudo depois. Outra que só lembro pouco é a obra de Cy Twombly, sem título que parece um monte de rabiscos em uma lousa. Eu ri e falei que podia fazer igual.



As de Gego eu achei divertidas porque eram instalações de arames espalhadas pelas salas, me pareceu um parque de diversões.

De Goya eu fiquei abismada com os desenhos de touradas, a série touromaquia, mas o motivo era por ter animais como assunto principal.

Na sala de Basquiat eu não entendi nada, tanto que lembro perfeitamente de ter entrado por alguns meros segundos e sair para ver outras coisas mais interessantes, porque pareciam pixações daquelas que se vê na rua todos os dias (mal sabia que a intenção era essa).

Eu adorei a aranha gigante de Louise Bourgeois, como não tinha nenhuma forma de grade ou barra de proteção em volta, eu corri lá para passar a mão na aranha.

Na sala de Picasso eu demorei uma eternidade porque queria saber exatamente o que era aquilo. Lembro que meu favorito foi Nu sur le Fond Rouge porque foi o único que eu achei que tinha entendido. Também lembro de Femme Assise porque consegui encontrar uma mulher escondida no meio do quadro (dêem uma olhadinha no site, não vou colocar todos os quadros aqui).

De Paul Klee, eu vi uma paisagem linda em Na Pedreira, na época meu caderno da escola vivia com esboços de montanhas com sol, árvores, passarinhos e coisas do tipo, principalmente na parte de matemática.

Pedro Figari só me segurou por alguns momentos no quadro La Reina Delega el Mando e Tomie Ohtake só me ganhou por alguns segundos enquanto eu imaginava o quanto seria legal escorregar de cima a baixo naquela baita estrutura.

Agora a sala que me parou, que tiveram que me tirar de lá arrastada, foi a sala do Munch e os únicos quadros que eu realmente lembro até hoje (sem ajuda de fotos em sites) foram dois quadros dele O Grito e Mãe Morta.


Lembro exatamente de quando parei na frente de O Grito. Eu me arrepiei até os dedos do pé. Eu não tinha lido o título do quadro ainda (eu raramente me preocupava com isso) e pensei: parece que ela está gritando, com medo. Foi quando eu tive aquela sensação meio estranha, aquele vazio do estomago que se sente quando alguém morre. Olhei o nome do quadro e fiquei muito feliz por ter entendido (para mim entender o quadro era entender o que o título tinha a ver com o que estava na tela).



Fui para o quadro seguinte, o A Mãe Morta e novamente me arrepiei e tive aquela sensação estranha. A expressão da mulher no sofá (aquilo era um sofá, por mais que minha amiga insistisse que era uma cama, eu dizia que ela tava muito encolhida, era como deitar no sofá, você se encolhe por causa do encosto) me assustou muito, aquele leve esverdeado contribuiu muito para me fazer lembrar do quadro por todos esses anos. Lembro que a partir daquele momento desenvolvi uma adoração mórbida pelos quadros de Munch (mesmo sem saber quem ele era).



Agora, revendo as fotos dos quadros que estavam em exposição, eu lembro de cada um deles. Alguns me chamaram mais a atenção que outros, por exemplo, em Morte no Quarto de Doente (eu achei que a morte era a mulher que estava de frente), Natureza Morta - A Assassina (eu vi um homem na cama assim que vi o quadro), Consolação (eu adorei esse quadro por causa das listras, pareciam formar um vestido nas duas mulheres, um vestido vitoriano que eu adorava colocar nas minhas bonecas), Puberdade (me deixou com muita vergonha de ficar vendo a coitada da menina nua se escondendo das pessoas que a olhavam, eu saí rapidinho da frente desse) e também lembro desse Auto-retrato com Cabeça de Bacalhau porque o velho parecia muito com meu avô (Putz! Parece mesmo!).


O que hoje me assombra é o fato de que eu era uma criança, não entendia nada de arte e mesmo assim capturei toda a emoção daqueles dois quadros (O Grito e Mãe Morta), mesmo que por medo. Talvez isso seja o significado da verdadeira arte... Transmitir o que se sente não importa a formação da pessoa. De que adianta fazer um calculo imenso para entender as proporções de Mona Lisa sendo que as pessoas são vão continuar vendo só o sorriso? A perfeição está no sentimento transmitido, não nas proporções.

4 comments:

Marcela said...

Inacreditavel!!!
Bom te conhecer melhor.
Ah, lembre-se, qualquer coisa, meu cel fica a sua dispo, 24/7!!!
Bjo
Mar

Ceres said...

Que belo post, sobrinha fofa do coração da titia. ;D

Eu tenho uma camisa com a estampa da Femme Assis que comprei no "Picasso na Oca". Ah, quando puder ir em outra exposição de arte, compro outra camiseta - tipo baby look. Álias, naquela foto em que estou com o Chiquinho(o gatinho da Fer), eu estou usando a tal camiseta, veja se dá pra notar.
Eu adoro usá-la.

Pelo visto, você sempre foi uma menina inteligente e interessada por artes, não ? Pra sacar certas coisas nas obras...

Titia aqui foi na Bienal de 98, a da Antropofagia. Fui duas vezes: a primeira eu, minha irmã e dois amigos. Andamos pra caramba. Lembro de obras de arte clássica, uns do século XX e, por fim, muitas muito estranhas da tal "arte moderna" que se convencionou a chamar, o certo seria falar "arte contemporânea", não ?
Urd, sua "mami" e minha maninha, DETESTA arte moderna, ela simplesmente *odeia*. Urd prefere arte clássica, quadros do Renascimento e afins.
Eu tenho umas fotos da Bienal de 98. Quando puder as mostro.

Isso que você falou sobre a arte se aplica também a música: o que importa,na realidade, é o que pensava e o que sentia o autor ao realizar a obra. Uma comunicação que não depende de idiomas, apenas do olhar (no caso das artes plásticas) e do raciocínio.

Excelente post, fofa.

Beijos da titia.
Ps.: veja se consegue enxergar a Femme Assis da minha camiseta...se bem que, pensando melhor, acho um poquito difícil.

Anonymous said...

Perfeita!!!

Ednilson said...

*observando os quadros*

Adorei o Grito. E tbm me deu uma sensação estranha; parece q tem alguém andando atrás de mim naqueles momentos q eu acordo no meio da noite pra tomar água (a mina do quadro fez o q eu tenho vontade)

mas, na boa...? Ainda prefiro o filme 'O Grito' pra me assustar! ^^

'Sem Título'? Isso é arte...? Vou te falar, é por essas e outras q eu tô cagoldman e andando pra essas coisas... Seja literatura, pintura, escultura ou qualquer outra loucura; pode ser´o clássico q for, respeitado por quem for: se eu não achar legal, não gosto. E digo isso pra quem tiver por perto.

Tá, apareça qdo quiser, criança. Enquanto o computador estiver funcionando, otouto vai dar as caras (mesmo q seja a troco de nada ^^)

Beijão!