Sunday, November 28, 2010

Disney; Animação Durante e Depois da Guerra

“Disney; Animação Durante e Depois da Guerra”

Introdução

O Cinema de Animação existe desde o chamado ‘o começo do cinema’ em 1895, talvez até antes, se levarmos em consideração de que animação são fotos, ou desenhos, que se posto em seqüência vê-se uma movimentação do personagem (igualmente ao principio do cinema). A animação foi experimentada desde Muybridge, que tirava fotos seqüenciais para conseguir um detalhamento dos movimentos.

A animação conhecida como é hoje, a arte de desenhar no papel em seqüência e conseguir um movimento, teve inicio oficialmente na década de 20 com experimentações em vários países da Europa e na América do Norte. Vários curtas-metragens foram produzidos nessa época, destacando os de Walt Elias Disney (1901 – 1968), com Mickey Mouse. A força desses personagens carismáticos em situações fantásticas e divertidas logo foi notada pelos seus realizadores e intelectuais da época.

Em 1928, com o filme O Cantor de Jazz acontece o começo do cinema falado, com som sincronizado. A animação não ficou para trás, Steamboat Willie, no mesmo ano também deu seu exemplo de som sincronizado, utilizando ainda ‘gags’ sonoras.

Devido ao trabalhoso processo de produção dos filmes de animação, parecia loucura o que Walt Disney começou a fazer, em 1931, o primeiro longa-metragem de animação com a protagonista desenhada através da rotoscopia à 24 fotogramas por segundo, para conseguir a perfeição de todos os seus movimentos. Branca de Neve e os Sete Anões se tornou um sucesso de público e crítica quando foi projetado em 1937, fazendo com que todos os estúdios e cineastas da época voltassem seus olhos para o estúdio Disney.
Seguiram filmes que foram considerados clássicos do cinema como Pinocchio (1940), Fantasia (1940), Dumbo (1941), Bambi (1942).

Mas como a história já previra, as tropas de Hitler aterrorizando a população européia, logo levou a Segunda Guerra Mundial. Com o poder da animação já provado, ela seria de grande utilidade para instruir a população e treinar soldados tanto do Eixo, quanto dos Aliados.

Não só filmes foram feitos, muitos animadores se alistaram e estúdios (como no caso da Disney) foram invadidos e intimados a começar a produção de filmes para a guerra.
Não posso aqui defender o fato de Walt Disney ter feito esses filmes porque foi ‘obrigado’, ele se orgulhava desse posto, apesar de ter seus projetos parados (como é o caso de Peter Pan e Alice no País das Maravilhas) ele era um patriota convicto e precisava de dinheiro, pois seu estúdio estava endividado.

Nos quadrinhos, Disney faz com que seus personagens mais famosos se alistassem e lutassem ao lado dos ‘mocinhos’, como é o caso do Pato Donald, que ficou mais de 20 anos ‘lutando’ na marinha Americana. Foram criados outros personagens dos quadrinhos de Disney em outros países, como é o caso do Brasil com Zé Carioca, para criar sentimentos de amizade entre países que eram úteis em tempos de guerra. Um longa-metragem foi feito nessa época (com Disney instalado no Brasil e na Argentina, estudando as culturas) exatamente para reforçar essa ideologia: Olá Amigos (1943), o único até hoje no qual Zé Carioca aparece.

Passada a Segunda Guerra, Disney retomou seus projetos (paralelamente com um posto de espião do FBI delatando supostos comunistas) e logo lançou os filmes Cinderella (1950), Alice no País das Maravilhas (1951), Peter Pan (1953), A Dama e o Vagabundo (1955), A Bela Adormecida (1959), 101 Dálmatas (1961), A Espada Era a Lei (1963) entre outros. Mesmo após sua morte em 1966, o Estúdio continuou sua produção de longas e séries até hoje, reformulando e desenvolvendo novas técnicas de animação.

Animação para Guerra

Estúdio Disney

Bob Thomas, em seu livro, Walt Disney: o Mago das Telas conta que quando a Segunda Guerra Mundial começou o estúdio Disney estava endividado e tentava inutilmente dar continuidade em projetos que sequer tinham verba para chegar ao final do processo. Com a invasão da França, o mercado de animação reduziu consideravelmente e por questões financeiras, parou com a produção de longas.

O Estúdio foi ocupado pelo exercito em 1941 e os desenhistas receberam ordens imediatas da Marinha que fizesse um filme para os artilheiros saberem identificar os aviões amigos dos inimigos. Pato Donald começou nesse momento suas ações governamentais. Enquanto filmes com personagens originais eram criados para treinar soldados, os personagens contribuíam para manter a moralidade e a ética entre os cidadãos.

Outros Estúdios

Charles Solomon em Enchanted Drawing: History of Animation, comenta que ao estourar a Segunda Guerra Mundial inúmeros personagens foram criados para a ‘ocasião’, um dos personagens mais famosos dos nazistas era o Lord Hee Haw do animador Norm McCabe’s e um filme da Disney “Stop That Tank” sem contar inúmeros logos para aviões e navios.

Nos Estúdios da Warner Brothers, Chuck Jones também teve a sua participação, fazendo propagandas com Patolino e Pernalonga usando capacetes de soldados e combatendo os inimigos de maneiras engraçadas. Até mesmo Orson Welles contribuiu com a animação Little Prince, mas infelizmente essa animação jamais saiu do story-board.

A MGM fez filmes de treinamento para soldados e personagens famosos como o Pica Pau, Andy Panda e o Coelho Oswald logo aparecem nos logos militares. Tex Avery fez um filme com personagens bombardeando uma caricatura de Hitler.
Não é a toa que vários personagens famosos surgiram e se firmaram nesta época. Pica Pau (1941), Tom e Jerry (1945), Red (1943), Gaguinho (1942), Gasparzinho (1945) entre outros…

Um interessante curta-metragem e bem famoso no Brasil é o “Guerra de Gato e Rato” onde Tom e Jerry lutam um contra o outro utilizando vários objetos domésticos e comidas como munição e enfrentando várias situações que os soldados enfrentariam (por exemplo, com um saco aberto de farinha, Jerry simula uma situação de combate na neblina) com várias placas e cartas com ordens especiais vindas diretamente do governo dos EUA.

No fim da guerra, os estúdios estavam endividados e destruídos, levantar dinheiro para futuros projetos e evitar uma falência eram uma das soluções tomadas para se recuperarem em um lento processo. A Warner e a MGM se levantaram investindo em seus filmes, já a Disney foi crescendo com as denuncias de Walt para o FBI. O autor Marc Eliot (Walt Disney: O Príncipe Sombrio de Hollywood) diz, ainda, em seu livro que Disney tinha contatos com o crime organizado que o protegia. Disney conseguiu dinheiro o suficiente para retomar a produção de longas e também para começar a construir o seu parque temático.

A animação de guerra, principalmente nos filmes da Disney, não se limitaram apenas a curtas e propagandas. Muitos longas continham metáforas e citações que também faziam seu papel de despertar simpatia no publico em um escapismo alienante.

Dumbo (1941)

Esse longa-metragem é considerado o primeiro filme em tempos de guerra da Disney. Independente desse fato, ele é uma das animações mais belas tecnicamente já feitas até hoje.

O argumento se resume a um bebê elefante que é descriminado por suas enormes orelhas, mas que consegue superar todos os seus problemas e se sobressair. Algumas seqüências foram imortalizadas por causa de sua emotividade (como a cena do bebê elefante sendo ninado por sua mãe, mesmo estando presa) e a performance dos corvos em “When I See an Elephant Fly”. Mas a seqüência mais polêmica e bela de todo filme são as figuras de elefantes em tecnicolor, feitos de bolhas, em uma dança surreal que surge como uma alucinação de Dumbo ao cair em um balde de cerveja e ficar bêbado. Ainda bêbado, ele come alguns amendoins e usa a tromba como metralhadora para atingir alguns inimigos.

Bambi (1942)

Na época de seu lançamento a crítica viu Bambi como uma animação muito ‘bonitinha’ e muito realista, e segundo eles esse contraste não funcionava. Por causa da guerra, esse filme não fez tanto sucesso na sua estréia quanto Branca de Neve, mas se levar em consideração que o publico europeu não poderia contribuir para seu sucesso, pode-se dizer que Bambi não teve uma recepção desfavorável.

O filme conta a história de um bebê veado que perde sua mãe (em uma das cenas mais chocantes feita em uma animação) e batalha para sobreviver por si próprio, até que consegue chegar a idade adulta e vingá-la, salvando também a floresta onde vive. Uma metáfora para as ‘justas’ vinganças de guerra.

Os puritanos e caçadores de imagens subliminares se referem a Bambi quase como um crime. O acusam de instigar a violência e o homossexualismo, inspirado em uma moralidade distorcida pela situação que a guerra impunha.

Olá Amigos (1943)

Em uma ‘missão’, Disney vem para o Brasil estudar a cultura local. Aqui, ele cria o papagaio Zé Carioca, um ‘brasileiro’ médio, inocente e bom de futebol. Em seguida ele vai para a Argentina e outros países da América do Sul. No fim de sua ‘jornada’, Disney tinha em mãos um roteiro para 4 curtas que seriam reunidos no longa-metragem Olá Amigos.
O filme trás de volta Pato Donald que faz uma viagem para a América do Sul, conhece os personagens de cada país que lhe apresentam os pontos turísticos mais famosos. No Brasil, Zé Carioca leva Pato Donald até a Bahia.

Cinderella (1950)

A partir de Cinderella, os longas-metragens Disney não mais servem ao propósito da guerra, pois esta já terminou, mas a situação do mundo não era das melhores, logo, esses filmes e outros conhecidos como escapistas (musicais, por exemplo) ainda são muito bem vindos pelo público. Uma distração.

A necessidade desses filmes aparentemente nunca terminará.

Cinderella conta a história de uma órfã que é maltratada pela madrasta e suas filhas, tendo apenas para conversar seus amigos ratos, pássaros e outros animais da fazenda onde vive. Ela é convidada para um baile assim como todas as moças da aldeia para conhecer o príncipe e se oferecer para ser sua noiva. Claro, eles se apaixonam e mais um conto de fadas tem um final feliz.

O que é mais criticado nesse filme é o fato de um gato se chamar Lúcifer. A fama de dedo-duro de Walt Disney não ajudou muito em eliminar esses ‘meros detalhes’ da narrativa. Algumas pessoas (principalmente as de esquerda em inúmeros países) assistiam aos filmes apenas para caçar essas ‘provas’ de que Disney não era um cara bonzinho como todos achavam.

‘Para Ler o Pato Donald’

Este livro, escrito por Ariel Dorfman e Armand Mattelard no Chile em 1972, é um ataque direto à figura de Disney. Eles apresentam uma visão esquerdista e apocalíptica não só as histórias e os personagens que Walt Disney desenvolveu, mas também aos meios de comunicação de massa e ao capitalismo. Esse livro apresenta, de forma descontraída e divertida, suas visões e acusações de todo o sistema econômico e social que gira em torno das histórias do Tio Patinhas.

As acusações mais polêmicas são frutos das descobertas de pequenos detalhes nas vidas familiares dos personagens: são todos sobrinhos de alguém, nunca tendo uma filiação direta. Nunca acontecem casamentos. E todas as relações são ambiciosas e interesseiras entre os habitantes de Patópolis.

Portanto, as acusações giram em torno de um sistema que estava (e hoje está mais ainda) em ruínas e que os quadrinhos (principalmente) jamais abordavam, como é o caso da desestruturação da família patriarcal. Ignorar a realidade foi considerado um crime de submissão nesse caso. O fato de Donald ser o sobrinho de Patinhas e ter também sobrinhos (Huguinho, Zezinho e Luizinho) e nunca ver os verdadeiros pais é um grande erro segundo os autores.

Não quero aqui defender a moralidade de Disney, mas sim de mostrar que ele era um homem que, assim como todos, sofre influencias de seu passado ao criar suas histórias. Seus problemas familiares podem ter sido inconscientemente transmitidos para seus quadrinhos (que não era diretamente ele que fazia). O fato dos autores estarem insatisfeitos com a situação do mundo naquele momento apenas ajuda mais ainda a encontrar mais ‘más influencias’ nos quadrinhos e filmes que acompanham a lógica de seu tempo.

Não estou dizendo que Disney era inocente e um bom homem, mas os quadrinhos do Pato Donald tinham muito mais o objetivo de girar um determinado capital para a industria do Estúdio do que sublinarmente transformar as crianças em monstros cruéis e ambiciosos.

Conclusão

Quando os casos se tornam famosos e polêmicos, como o de Disney e suas loucuras, perde-se a noção da verdade e tudo parece possível, transformando tudo em mito e criando fanáticos que acreditam que tudo é uma grande Teoria da Conspiração. Apenas poucos fatos são confirmados em registros oficiais.

Independente de Walt Disney ter ou não sido um louco, pedófilo, espião, simpatizante do nazismo ou qualquer outra coisa que seja acusado, ainda é admirado por ter sua contribuição na animação.

As técnicas que ele desenvolveu, as seqüências imortalizadas por sua beleza estética e emotiva e sua criatividade para desenvolver esses projetos complicadíssimos. Ele apostou firmemente no poder da animação de conquistar o público com fantasias e metáforas da realidade.

A animação em si tem tanto poder quanto um filme live action. Existem os grandes nomes da animação assim como existem os grandes nomes dos filmes. Hoje em dia muitos já perceberam esse fato e as técnicas estão se aprimorando cada vez mais. Nesse ponto, é impossível não agradecer a Walt Disney por sua contribuição. A animação não é mais conhecida como filme para criança (se é que algum dia foi), mas sim uma nova e poderosa industria que faz filmes de diferentes gêneros e estilos úteis a várias situações, inclusive as de guerra.






Bibliografia
Cartoons: Il Cinema D’Animazine, Bendazzi, Giannalbeto
Cinema Del Dopoguerra, Carpi, Fabio.
Para Leer Al Pato Donald, Dorfman, Ariel, Mattelard, Armand.
Walt Disney: O Mago das Telas, Thomas, Bob.
Walt Disney: O Príncipe Sombrio de Hollywood, Eliot, Marc.
Enchanted Drawing: History of Animation, Solomon, Charles.

Filmografia
O Cantor de Jazz (1928)
Steamboat Willie (1928)
A Branca de Neve e os Sete Anões (1937)
Pinocchio (1940)
Fantasia (1940)
Dumbo (1941)
Bambi (1942)
Olá Amigos (1943)
Cinderella (1950)
Alice no País das Maravilhas (1951)
Peter Pan (1952)
A Dama e o Vagabundo (1955)
A Bela Adormecida (1959)
101 Dálmatas (1961)
A Espada era a Lei (1963)
Guerra de Gato e Rato,Tom & Jerry, (1941)
Episódios Aleatórios de Pica-Pau (1941 – 1947)
Episódios Aleatórios de Andy Panda (1941 – 1947)
Episódios Aleatórios de Pernalonga (1941 – 1945)
Episódios Aleatórios de Tex Avery Show (1941 – 1943)

(post recuperado de 2004)

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