Sunday, May 08, 2011

Coisas que o Trabalho tá me Ensinando

Não sei se todos sabem as circunstancias que me levaram a trabalhar na empresa em que estou há 10 meses. Sinceramente, não importa muito. Eu precisava de um estágio para não acabar a faculdade de arquitetura completamente sem vivencia prática como aconteceu com cinema.

Depois de algumas semanas procurando fui parar onde estou agora. Gostei muito no começo, na verdade é um trabalho bem tranquilo, mas já começou rompendo minhas expectativas. Candidatei-me a uma vaga de estágio, mas como já sou formada, inventaram um cargo para me pegarem em tempo integral. Problema: tempo pra fazer meus trabalhos da faculdade. Basicamente 3 horas a mais na empresa (2 horas de trabalho + 1 hora de almoço) e salário? 100,00 a mais, apenas.

Estava desesperada e não poderia recusar. No começo era tranquilo, mas... as pessoas aos poucos descobriram que: sei fazer apresentações sensacionais em PowerPoint, tenho uma ótima didática, tenho discurso coerente, aprendo rápido, entendo de leis e falo 3 línguas. Isso me trouxe mais trabalho do que me candidatei e... só pra ilustrar: considero tudo o que me pedem, que não inclui o meu know-how da faculdade de arquitetura, como favores. Não fui contratada para fazer instalações de vídeo e som para eventos internos. E não me pagam o piso de comunicação social, até onde estou sabendo.

Mas não vou reclamar completamente de tudo porque entrei lá sabendo: autoCAD, pacote office, ilustrações. Aprendi a: acompanhar obras, fazer medições, controle de fluxos de pagamentos, planilhas, elétrica (instalações, geradores, cabines primárias), hidráulica, planta de bombeiro, normas específicas como a RDC-50 (que decorei), elaborei uma carteira de fornecedores, entrei em contato com pessoas da área que me ensinaram muito sobre vivência em obra, como lidar com clientes chatos.
Mas confesso que aprendi algumas coisas do mercado de trabalho que são realmente chatas: se você faz mais do que te pediram, vão encarar como se fosse a sua obrigação. Você nunca mais ouvir um ‘obrigado’ (na verdade eu escuto, tenho dois chefes muito legais e educados, mas eles estão subordinados a pessoas que não ligam para as ralés), você será obrigado a fazer hora-extra para manter a boa imagem mesmo tendo outros compromissos. Esse ano perdi uma prova, 4 consultas, 2 exames e um day spa (tive que pagar uma das consultas, tive que pagar para fazer outra prova e perdi o pacote do day spa que tinha ganhado). Descobri que é necessário desenvolver uma personalidade radiante no ambiente de trabalho que levo em paralelo com a minha personalidade normal: sarcástica, com muito humor negro, cheia de referencias pop. O médico do trabalho te trata como lixo. Acham que você está sempre querendo uma desculpa para ficar em casa. Não acreditam nos seus exames e ainda te olham com ar de superior por mais que você esteja preocupado com uma dor aguda ou uma visão embaçada.

Aliás, médicos acabam sendo uma das minhas maiores reclamações. Ter médicos como colegas de trabalho é complicado. Muitos são educados, uns amores mesmo. Mas tem outros que não te respeitam; que fazem você demolir tudo o que já construiu e quando fica pronto dizem que odiou tudo, do piso ao forro.

O maior problema é me sentir desrespeitada. Ando pela rua e escuto comentários de caminhoneiros que passam na região e me sinto um verdadeiro lixo, um objeto que não merece um olhar mais de perto. Sinto-me desrespeitada por não me agradecerem, por acharem que o que fiz foi ‘fácil’, quando cobram favores e tratam como se fosse minha obrigação fazer. Sinto-me desrespeitada quando faço muito, ganho pouco, perco horas de estudo, perco check-ups e me tratam como preguiçosa.

Sinceramente, sou preguiçosa sim, mas estou descobrindo porque muitos brasileiros são preguiçosos. Sem reconhecimento, sem estímulo, fica difícil querer sair cedo da cama. Você trabalha, perde horas de sono, faz hora extra e se esforça pra sobrar um dinheirinho no fim do mês... aí a faculdade corta sua bolsa auxilio de 20%... aí tem o preço do álcool que sobe... aí tem o mercado toda semana... o que sobra de todo o seu esforço?

2 comments:

Dani said...

Pelo relato que você fez o que dá a entender é que você optou por uma vaga muito aquém do seu currículo e a empresa a contrato mesmo sabendo de todo o seu potencial sem qualquer intenção de aproveitar suas habilidades/conhecimento.

Isso é tão comum quanto a falta de proifissionais qualificados neste mesmo mercado.

Aceitar algo menor ou maior do que suas habilidades é aceitar o risco da frustração.

O que deve ser pensado e até levado aos seus chefes é: há a possibilidade de aproveitar tudo o que você já faz de forma oficial (e remunerada)?

Vivi said...

Mas foi isso mesmo. Eu até achei coisas que correspondiam ao meu perfil, mas ninguém me queria por ser recém formada. Eu deveria ganhar mais do que minha idade (e o ego das pessoas em volta) permite. Eu estou a onde estou por ser perto de casa e da faculdade, mas aos poucos estou fazendo muito mais do que a proposta inicial. Meus chefes também sabem disso. O ruim é que até fazerem algo a respeito vai demorar.