Thursday, June 23, 2011

La Solitudine Dei Numeri Primi – Paolo Giordano.




Terminei de ler esse livro há uma semana e ainda estava pensando sobre o que escrever a respeito dele. É melancólico e envolvente. Tive uma dificuldade tremenda de largar uma pagina na hora do almoço para voltar ao trabalho.

O isolamento dos dois personagens começa desde as primeiras páginas e a angústia para se encaixar nos moldes sociais das outras pessoas – como é o esperado de uma pessoa dita normal – deixam claro que os papéis são inversos. O isolamento dentro da casa é a liberdade da alma, enquanto a rua, os amigos, são prisões cujo julgamento é o olhar os outros.

Mattia é um dos personagens principais, desde pequeno ele tem a tendência a se esconder dos colegas devido a uma irmã gêmea, Michela, que é, como ele diz (em italiano, pelo menos), uma retardada. Ela baba, ela não fala, ela deixa a comida cair no meio do restaurante. Um colega convida os dois ao aniversário – a contragosto, obrigado pela mãe – e Mattia vê a chance de conquistar alguns amigos. Temendo que a presença da irmã estrague tudo, ele a deixa em um parque, com a intenção de buscá-la depois. Porém quando ele volta, ela não está mais lá. Não se sabe se ele contou aos pais que o desaparecimento da irmã é culpa sua; só se sabe que em algum ponto depois daquilo, ele passa a cortar as mãos, seja automutilação ou tentativa de suicídio.

Outra personagem é Alice, subentende-se que é rica o suficiente para ter uma empregada e para esquiar nos Alpes no inverno. Ela odeia esquiar e a figura de seu pai desde o começo parece ser invasiva e ameaçadora. Seus poucos minutos de conforto é quando se tranca no banheiro e enrola para sair, até que não tenha outro jeito. Seu pai a força a tomar leite antes de sair para esquiar. O leite a faz ter uma disenteria e com vergonha, ela fica escondida na neve, até que possa descer pela montanha sem que ninguém a veja, mas no caminho sofre um acidente. Ela fica manca e ganha uma cicatriz gigantesca na perna.

O leite, sem desconfiarmos, é um dos indícios da anorexia que Alice desenvolve. Não se sabe se desde pequena ela repudiava os alimentos ou se foi depois do acidente que começou a culpar a comida por sua condição. Ela se isola na escola. Adoraria ser como as lindas colegas, mas ela apenas se torna uma vítima de bullying ao tentar se aproximar.

Mattia vai a mesma escola e consegue involuntariamente um colega perseguidor. Esse colega secretamente tem uma grande admiração por Mattia e o deseja fervorosamente. O despertar da sexualidade das crianças de 14 e 15 anos é tratado como uma experiência para poucos privilegiados. Mattia e Alice não se sentem parte desse grupo e mesmo que acabem caindo em uma armadilha de Viola em um aniversário, eles terminam apenas como bons amigos, como cúmplices da solidão um do outro.

Alice resolve não frequentar a faculdade, descobre que é uma boa fotógrafa e foca nessa carreira. Mattia, ao contrário de Alice, gosta de exatas e faz faculdade de matemática, encontrando nos números um refugio para passar o tempo. Parece que apenas isso daria aos personagens um motivo para interagir com mundo, mas Alice em paralelo despreza ainda mais a comida, e Mattia ainda luta contra sua vontade de continuar se cortando.

Ambos parecem que se acertam aos 20 e poucos anos, imortalizando uma foto de um casamento de figurino no quarto dos pais de Alice. Em uma tradução livre, uma das frases do livro que faz com que se perceba que eles vão apenas dividir a solidão para sempre está no capítulo 21: "são casais de números primos que estão lado a lado, ou melhor, quase próximos, porque entre eles sempre há um número par, que os impede de tocar-se verdadeiramente." É nesse ponto que se percebe que eles não vão se completar e assim, resta saber o que acontecerá com os dois.

Alice se casa com um médico, o que é espantoso até mesmo para ela. Mattia tem alguns encontros amorosos, mas nada que faça com ele saia de sua melancolia interior. Eles ainda mantém um laço forte apesar de estarem países diferentes.

A crise do casamento de Alice e seu distúrbio alimentar acabam levando ela ao hospital contra sua vontade, mas quando finalmente pensa-se que ela vai encontrar uma redenção e se submeter ao tratamento, na verdade ela vê uma moça parecida com Mattia, se comportando como criança dentro do hospital. Uma senhora a acompanha. Alice está certa que é Michela, e finalmente ela poderá libertar o amigo da culpa de ter perdido a irmã.

Mattia vem ao encontro de Alice na Itália e eles apenas passam o tempo juntos como se mais nada importasse a não ser estarem dividindo aquele momento. Alice não fala de Michela e nem do motivo de ter chamado Mattia (a crise em seu casamento). Eles passam o tempo como se fossem adolescentes novamente, fazendo tudo e absolutamente nada.

O final fica em aberto. Se realmente era Michela não é possível saber. O que fica claro é que cada um continuará levando sua vida. Sozinhos.

2 comments:

Louco said...

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E o oposto do que eu gosto, nee-chan. Nah, a gente já vive sozinho o bastante sem ter que ler mais a respeito disso. Fiquei meio deprimido só de ler teu review; é uma daquelas histórias que pode ser excelente, mas eu cordialmente dispenso.

Afinal, tudo o que é preciso pra ficar triste com entretenimento é assistir noticiários de segunda feira -_-' Desafio qualquer um a encontrar um único que não traga vários atropelamentos, sequestros e latrocínios. Nah, já tem bastante drama na vida real; pra minha ficção, eu prefiro alguns romances e comédia. Em algum lugar, as pessoas precisam poder sorrir um pouco, tbm.

Bjon do otouto (que duvidava que vc não esperasse um comentário assim ^^)

Vivi said...

Hahaha, sim, eu imaginei que você não gostaria do tema do livro, mas eu achei muito interessante. Engraçado que não consegui largar o livro mesmo sofrendo a cada página. O recurso do autor é o máximo e é isso que eu admiro. :D