Wednesday, November 09, 2011

A Viagem do Elefante

Acho que já comentei como gosto do Saramago. Gosto da maneira como ele explora tabus e o limite da resistência humana. A Viagem do Elefante é um pouco diferente, por ter como objetivo narrar uma trajetória de um elefante que saiu de Lisboa e caminhou até Viena por volta da data de 1550. Saramago reuniu elementos verídicos em sua grande maioria, mas deixou que a ficção completasse as lacunas históricas.

A narrativa começa com o Rei e a Rainha de Portugal querendo presentear o primo Maximiliano, de Viena, e por não haver muita utilidade para um elefante em Portugal, a saída foi dá-lo ao primo. Afinal, o paquiderme era apenas uma besta que só comia.

Durante a trajetória, novamente é possível identificar alguns elementos conhecidos de Saramago. O milagre que o elefante Salomão realiza na porta de uma igreja nada mais é do que uma critica ácida.

Salomão é deus, é animal, é fedido, e tem todos os reflexos emocionais dos homens projetados sobre ele. Seu cornaca (uma palavra que significa tratador de elefantes) Subhro com seu olhar de estrangeiro critica o sistema, a politica e a religião dos homens que o levam, mas se submetendo as vontades daqueles que são mais poderosos, ao ponto de aceitar (mesmo que com alguma resistência silenciosa) o novo nome de Fritz.

O final é maravilhoso. Sua ideia de passar a ironia da vida, nossos esforços em vão para chegar a algum lugar, deixa o livro com um gosto amargo. É o tipo do livro que não te permite olhar para o lado. Você não quer deixar de ler nem por um minuto.

Em uma entrevista coletiva, Saramago diz "[Contei esta história] em primeiro lugar, porque me apeteceu, e em segundo lugar, porque, no fundo - se quisermos entendê-la assim, e é assim que a entendo - é uma metáfora da vida humana: este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas”

"Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante - que, depois de tudo aquilo, acaba de uma maneira quase humilhante, aquelas patas que o sustentaram durante milhares de quilómetros são transformadas em objectos, ainda por cima de mau gosto - no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso", defendeu.

Realmente, e a dedicatória, no começo, “A Pilar, que não deixou que eu morresse”. Acho lindíssimo o relacionamento que Saramago teve com a esposa, 20 anos mais nova.
Mas aí, já é uma crítica para quando for escrever sobre o filme José e Pilar.

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