Thursday, September 13, 2012

O Tango de Tibério e Lola

ADORO O PONDÉ

Luiz Felipe Ponde

O texto abaixo contém um Erramos, clique aqui 41542-erramos.shtml para
conferir a correção na versão eletrônica da Folha de S.Paulo

O tango de Tibério e Lola

Estavam dançando um tango: quando ele ia, ela recuava, quando ele
recuava, ela vinha

O amor é um tango. Hoje vou contar uma história de amor que ouvi de
alguém esses dias. Esta história é real e nos faz pensar, afinal, quem
somos nós.

Tibério era um jovem promissor. De boa família e com bons
antecedentes, era visto como alguém inteligente, vivo e alegre. Vivia
sua vida, numa casa de classe A, quando, numa noite de calor, viu
alguém chegar à vizinhança. Loira, naquela idade que as avós chamavam
de menina-moça, mesmo que ainda novinha, já se mostrava pronta para um
investimento erótico.

Lola passeava pela vizinhança, livre e senhora de si, como são as
fêmeas da espécie quando seguras de sua beleza e de seu charme. Para o
coração do jovem Tibério, aquilo foi demais.

Ficou obcecado por Lola. Tentou voltar para sua vida pré-Lola, mas não
adiantou. Nada do que tinha fazia mais sentido, pensava naquela jovem
loira todo o tempo. Ficava parado olhando para parede, como se sua
casa, sua vida e seus objetos de valor tivessem se esvaziado de
sentido. Se Tibério soubesse filosofia, diria que a vida perdera o
significado.

Ele era ainda virgem. No fundo da alma, se envergonhava disso e
preferia que este fato permanecesse em segredo.

Mas, de repente, tomou uma decisão e resolveu abordar a bela e
irresistível Lola, a loira arrasadora do "cartier", como dizem os
franceses. Quem sabe, pensou Tibério no silêncio de sua alma, ela
fosse, ainda que jovem e virgem, uma loira devassa em potencial? Pelo
caminhar dela, balançando, ainda que discretamente, as promissoras
ancas, ele pensou que tinha alguma chance.

Chegou perto e tentou falar com ela. Nada. Aquele olhar de desprezo
que só fêmeas lindas da espécie sabem dar quando percebem que algum
jovem candidato está por perto. Mas, percebia Tibério, Lola o olhava
pelo canto dos olhos.

Tibério tinha razão. Ela estava dando sinais de interesse.
Aproximou-se e tentou chegar bem pertinho. Lola, literalmente rosnou
para ele. De primeira, Tibério temeu que ela o fosse morder de fato.

Tibério correu para casa, temeroso. Mas o desejo era grande, e Lola
seguramente o olhava de longe, com olhos doces. Todos os seus genes
ancestrais diziam: "Tibério, vá fundo, cara!".

O jovem voltou à carga. Pensou naquilo que todo macho pensa: "Ela quer
um presente!". Não tinha nada à mão e, infelizmente, dependia da sua
família para ir a um shopping, portanto teve uma ideia desesperada:
"Vou dar para ela o que eu mais gosto e assim ela vai ver que eu quero
muito ficar com ela".

Correu e pegou um objeto (pouco importa o que era, mas sim o valor que
tinha para ele; de longe alguém diria que não passava de uma bola).
Colocou carinhosamente o objeto diante da bela Lola. Ela, de novo,
desprezou o infeliz Werther. Recuou. De longe, de novo, percebeu o
discreto sorriso da bela Lola. Ela estava mesmo dançando um tango com
ele: quando ele ia, ela recuava, quando ele recuava, ela vinha.

Uma dor grande se apoderou do pobre coração apaixonado. Mas, de novo,
seus genes clamavam pela jovem Lola. Decidiu fazer-se de macho
poderoso do pedaço e se aproximou confiante.

De repente, assim como quem ia roubar um beijo e um abraço, Tibério
tentou se apossar de Lola. Ela, agora sem dúvida nenhuma, rosnou e o
mordeu sem pena.

Tibério fugiu humilhado. Perdido, tentou comer alguma coisa. Mas, de
novo tomado pelo amor, pensou se Lola não o aceitaria em troca de sua
comida importada, mesmo que por um segundo tivesse pensado que aquilo
não eram modos de abordar uma dama fina como Lola.

Docemente, ele empurrou a comida para ela. Lola comeu a comida dele e
virou de costas. Tibério ficou arrasado e sentou-se, triste, enquanto
a contemplava pela porta de vidro. Lola olhou para ele e ensaiou um
sorriso, mas não adiantou. Tibério já estava triste e adormeceu. No
dia seguinte, à mesma hora que Lola chegara, reconhecendo o carro,
correu para o porta-malas para ver se a bela Lola voltara. Mas não.

Alguém perguntará: como uma bela dama pode vir num porta-malas?
Simples: basta ela ser uma golden retriever, e ele, um border collie.

Sim, o amor é um tango, seja entre humanos, seja entre cães.

ponde.folha@uol.com.br

Pondé

Texto do Pondé de 14/05/2012

Luiz Felipe Pondé

A traição da psicologia social

Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as
culpadas por roubarmos os outros

Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do
mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como
resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos
desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por
fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores
por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por
obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare,
"Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).

Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas
cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção
social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que
seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na
época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.

Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim
como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no
vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do
passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas
escolhas.

Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.

Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da
minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele.
Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e
homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho
dele...

Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência,
mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao
contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da
literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada
tenho a priori, às vezes exagera na dose.

O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a
única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos.
Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta
forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault?
Não?! Fogueira para você!".

Mas até aí, este pecado de fazer bullying com quem discorda de você é
uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles
que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero
fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque
existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de
uma delas abaixo.

Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a
seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz
besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz
porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que
esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que
Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como
responsáveis por nossos atos.

Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as
culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos
infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado
de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na
lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu
ridículo.

Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore
Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that
Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo,
a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de
que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por
nossos atos.

Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos
bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da
construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas
preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos.
Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em
psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós
todos uns retardados morais.

ponde.folha@uol.com.br

Monday, September 10, 2012

Ladrões Preguiçosos

Depois de tanto tempo afastada do blog, retorno para tocar em um ponto
que parece promessa de campanha eleitoral.

Ontem assisti a matéria do Fantástico (desculpem pela fonte chula)
sobre penalizações com prisão para crimes de trânsito. Não quero
comentar as punições em si, se estão certas ou erradas, fica para a
próxima. Quando ouvia a reportagem eu apenas pensava em uma coisa:
superlotação das cadeias. Aliás, pensava em duas coisas: maldito seja
quem inventou a redução das penas por 'bom comportamento'.

Não acredito que alguém possa ser 'reabilitado' para a vida social
depois de cometer um crime grave como assassinato, estupro e/ou
tortura. Porquê soltar um individuo desses depois de 30 anos? Ou
depois de 4 anos?

Ah sim, porque as cadeias estão superlotadas. Ora essas... mas será
que vale a pena ser preso?

Vamos pensar como um ladrão. Ainda não engoli aquele assalto na minha
residência há três anos. Vale muito a pena assaltar uma casa de alto
padrão. Arrastões em apartamentos de luxo, então, valem a pena ao
quadrado. Nós, pessoas honestas, trabalhamos por anos para conseguir
comprar um carro, uma casa, um microondas e até pegar internet para
postar umas besteiras no facebook. Um dia, quatro pessoas entram na
sua casa e levam tudo o que você demorou uma vida inteira para juntar.
Em uma hora e meia, conseguem quase 60 mil em 'mercadoria'. Que
salário fantástico! Se duvidar nem os políticos do mensalão
conseguiram um feito desses.

Lógico que até hoje não consegui recuperar o levaram. Minha conta está
no vermelho há anos, com prestações do carro que levaram e que o
seguro não pagou, devendo juros absurdos cada vez mais.

Eis que vem a pergunta: ladrão sabe o que é trabalhar há por anos para
conseguir alguma coisa? Se vão presos (como não é o caso dos ladrões
que entraram em casa) eles ficam anos sentadinhos em uma cela,
comendo, bebendo e tomando banho às custas dos impostos que pagamos.
Para comer, beber (mercado, 500,00 por mês) e tomar banho (100,00 de
conta de água e 200,00 de luz para a água aquecida) eu gasto uma
fortuna. Se economizasse isso no mês, conseguiria pagar as prestações
do carro que me roubaram.

A punição não deveria ficar preso em circunstâncias degradantes (o que
apenas acumula a raiva), a punição deveria ser trabalhar. Trabalhar
muito. Precisa de mão de obra (gratuita!) para baratear o custo de uma
ferrovia? Leva os presos para martelarem. Precisa de matéria prima
para asfatar as vias esburacadas? Coloca os presos pra quebrar pedra
no braço! Não precisa de chicotadas, precisa de chefe. Precisa suar
para pagar o pão.

Ninguém tem medo de ir preso. Prisão é férias e um local para
networking. Essas pragas tem medo de trabalhar. Queria ver o índice de
criminalidade aumentar com uma proposta política dessas.

Teste

Vamos testar como está esse negócio de mandar post por email.

Wednesday, September 05, 2012

Um convite especial

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