Thursday, September 13, 2012

Pondé

Texto do Pondé de 14/05/2012

Luiz Felipe Pondé

A traição da psicologia social

Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as
culpadas por roubarmos os outros

Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do
mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como
resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos
desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por
fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores
por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por
obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare,
"Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).

Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas
cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção
social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que
seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na
época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.

Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim
como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no
vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do
passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas
escolhas.

Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.

Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da
minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele.
Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e
homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho
dele...

Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência,
mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao
contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da
literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada
tenho a priori, às vezes exagera na dose.

O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a
única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos.
Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta
forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault?
Não?! Fogueira para você!".

Mas até aí, este pecado de fazer bullying com quem discorda de você é
uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles
que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero
fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque
existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de
uma delas abaixo.

Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a
seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz
besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz
porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que
esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que
Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como
responsáveis por nossos atos.

Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as
culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos
infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado
de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na
lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu
ridículo.

Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore
Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that
Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo,
a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de
que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por
nossos atos.

Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos
bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da
construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas
preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos.
Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em
psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós
todos uns retardados morais.

ponde.folha@uol.com.br

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