Thursday, March 21, 2013

Vítimas Sociais



Estava sentadinha lendo as notícias quando, novamente, está em destaque na primeira página uma brutalidade no trânsito, como já de costume. Dessa vez, uma menos trágica: um homem atropela um casal (que tiveram apenas ferimentos leves), bate em um microônibus e foge. Mais tarde, na delegacia, além do teste de bafômetro acusar empriaguês, ele ainda insulta e ameaça os jornalistas.

Foi quando vi a foto do cidadão, desfocada, em um ângulo não muito lisonjeador. Essa foto pintava o cara de demônio do asfalto, colocando-o no mesmo patamar do universitário que arrancou o braço do ciclista na semana passada.

De repente, me veio a cabeça uma lista enorme de acidentes de trânsito. Pessoas em velocidades altíssimas que se acidentam e matam, como o caso do motorista do Porsche que matou no cruzamento das ruas Tabapuã e Bandeira Paulista; o caso do motorista que furou o bloqueio em um Honda Civic e matou o filho de uma atriz famosa, o motorista no RS que atropelou vários ciclistas e o último no qual um jovem ficou sem o braço.

Agora quero fazer um paralelo com assaltantes, assassinos, estupradores, traficantes e companhia limitada: os direitos humanos retratam essas pessoas como vítimas sociais. Adorei uma frase que o Luiz Felipe Pondé inseriu em seu texto "Uma Nova Ciência Moral", publicada pela FOLHA no dia 25/02/13: "Existem também os canalhas sociais. Estes são aqueles que justificam seus atos via condições sociais em que vivem, dizendo coisas como "a escola em que estudei fez de mim um canalha, por mim seria diferente".". Eles não tiveram escolha, pelas condições sociais que tiveram, pela criação, pela educação, pelo pai malvado que o fez trabalhar desde cedo, ou pela mãe malvada que o largou na rua para pedir esmola no semáforo.

Os direitos humanos dizem que eles não tiveram escolha. Eles não puderam frequentar boas escolas, aliás, não puderam frequentar nenhuma escola, porque apesar de ter escolas perto da casa deles, esses futuros marginais se perdiam pelo caminho, usavam a sala de aula para fazer networking de maus elementos, tudo escondido dos olhos da sociedade, que é omissa, malvada, cobra impostos caros para não dar retorno aos coitados de baixa renda. Ah sim, e esses filhos de classe média que cometem crimes para 'melhorar a mesada'? Também são vítimas de pais que trabalham o dia inteiro, não deram amor e carinho o suficiente, pois não estavam presentes na formação básica. Esses pais, preocupados em fazer hora extra para garantir o dinheiro do ensino fundamental, perderam de vista o filho -inocente, coitadinho - que colocaram no mundo.

E esses motoristas imprudentes? Esses sim são verdadeiros bandidos! Bebem, matam e são crucificados pela mídia. Um ato como esse já diz respeito da vida inteira do elemento; matou  vai matar de novo, como diria o Datena. Afinal, eles tem dinheiro pra ter um carro bom - um Porsche, um Civic, - ou seja, estudaram em escolas caras, comeram Danoninho, tomaram leite longa vida, foram criados por pais de bem, que puderam lhe dar amor e carinho de forma mais presencial. É um insulto uma pessoa tão privilegiada beber e dirigir. Merece prisão perpétu, não é mesmo?

O conceito do médico e o monstro cai muito bem aqui. Não importa se você é medico o dia inteiro, se entrar no carro e virar um monstro você é um bandido muito pior que aquele que é monstro o dia inteiro. Afinal, ele não teve escolha, mas você, médico, tem plena consciencia que deve se policiar para não virar monstro. Por mais que esteja parado na 23 de Maio, depois de um longo dia de trabalho, as 18h, véspera de feriado, com um furúnculo crescendo nas nádegas, você deve se reprimir e não virar monstro. Não deve tentar acelerar por um bloqueio, não deve xingar o carro do lado. Não deve perder o autocontrole.

É inaceitável que você perca o controle. Você é bem de vida. Como pode reclamar? Nós, olhos da mídia e o senso comum, não aceitamos as suas dores. A nossa é pior. É sempre pior, afinal somos cidadãos de bem, que pega ônibus enquanto você paga seu IPVA e gasolina exorbitante para ter conforto. Se nós perdemos o controle, é porque fomos injustiçados, porque fomos vítima de algum abuso infantil. Você, se perde o controle, é porque é naturalmente malvado, é porque mostrou seu lado verdadeiro.

Se as condições sociais levam um indíduo a roubar e matar, as condições sociais não podem induzir alguém a ter um dia de imprudência no trânsito? Ou o psicológico de um "médico" é uma couraça, enquanto o psicológico do "monstro" é uma folha de papel? Não estou defendendo quem bebe e dirije, quem dirige em velocidades absurdas em ruas de bairro. Apenas quero que tomem cuidado com os julgamentos.


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